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Wagner Salaverry

Entrevista Com Wagner Salaverry – Lições de um dos Maiores Investidores em Valor do Brasil

Hoje meu entrevistado é o Wagner Faccini Salaverry, diretor de Gestão dos portfólios de Renda Variável na Quantitas e que tem uma larga história no mercado brasileiro.

Wagner Salaverry, diretor de Gestão dos portfólios de Renda Variável na Quantitas e que tem uma larga história no mercado brasileiro é meu primeiro entrevistado aqui no blog.

Esta é uma novidade que, a partir de agora, você vai passar a ver por aqui: entrevistas exclusivas com grandes profissionais do mercado de ações.

Sob as mãos de Wagner Salaverry está um impressionante patrimônio de mais de 20 bilhões de reais. A Quantitas, de Porto Alegre, é a maior gestora de recursos fora do eixo Rio-São Paulo.

Wagner Salaverry é administrador de carteiras, analista de investimentos autorizado pela CVM e certificado pela Anbima. Graduado em administração de empresas com área de concentração em finanças pela UFRGS, acumula experiência de mais de 15 anos no mercado financeiro e de capitais.

Entrevista Com Wagner Salaverry

Tive uma conversa bastante produtiva com ele. Wagner comenta sobre Value Investing, fala sobre investidores que admira, dá conselhos para quem está iniciando e muito mais.

Aproveite a entrevista. Será um aprendizado riquíssimo.

1. Qual a forma mais adequada e sensata para o pequeno investidor encarar o mercado de ações?

Wagner: Num país como o Brasil, essa resposta é bem difícil.

Primeiro porque a taxa de juros que se mostra historicamente é alta, está alta no momento, e provavelmente se manterá alta (ou aumentará) caso os grandes desafios fiscais dos governos federal e estaduais não sejam enfrentados e resolvidos – o que não parece nem perto de acontecer.

Não há como relativizar os aspectos de risco associados à condução da economia brasileira (déficits elevadíssimos, dívida crescente, inflação alta e PIB encolhendo), pois estes acabam afetando muito o preço das ações e as perspectivas de investimento no mercado acionário, afugentando não só os brasileiros mas também os estrangeiros para o nosso mercado acionário.

Para alguém como eu, cuja carreira toda foi feita no mercado de renda variável, é muito triste ver que voltamos no Brasil a enfrentar desafios semelhantes aos do final do século passado e início dos anos 2000, depois de um período muito positivo e favorável ocorrido até a crise de 2008.

Por tudo isso, respondo que a forma mais adequada e sensata do pequeno investidor encarar o mercado de ações é ter cautela. Achar que as ações brasileiras estão baratas atualmente implica uma premissa de que voltaremos a apresentar crescimento de PIB, redução de inflação e juros no país, além de alguns aspectos externos favoráveis também.

Por outro lado, se essa realidade não se concretizar, a chance de comprar ações de empresas brasileiras com melhores preços existe, e não é desprezível.

2. O que Wagner Salaverry pensa sobre a estratégia de investimento em valor?

Wagner:  É uma estratégia reconhecida, consistente e referendada por grandes gestores no mundo todo, que se propõe (se pudéssemos resumi-la) a comprar ações que oferecem grandes “margens de segurança” aos investidores, o que significa pagar muito menos pelo preço de cotação do que o “valor intrínseco” desta companhia realmente vale.

É uma ótima estratégia, mas como quase tudo na vida, a dificuldade é transferir a teoria para a prática, ou seja, como detectar quais ações oferecem grande diferença entre sua cotação e o valor intrínseco da companhia – ou quais as ações que hoje estão baratas e que no futuro se valorizarão.

3. Como a filosofia do Value Investing pode ajudar os investidores?

Wagner Salaverry: Talvez um dos principais benefícios que esta estratégia ofereça aos investidores seja a diminuição dos riscos de perda, considerando que dificilmente um investidor que a utilize comprará ações tipicamente “caras” e de crescimento, ou seja, com múltiplos Preço/Lucro ou EV/EBITDA elevados (para citar indicadores mais tipicamente usados no mercado).

É comum investidores que usam o Value Investing comprar ações de empresas de negócios mais maduros, com grande geração de caixa, menos arriscadas e que muitas vezes pagam maiores dividendos (lucro) aos acionistas.

Ao fugir de empresas de grande crescimento ou expectativa de crescimento, onde o “valor” depende muito mais de uma efetiva realização no futuro do que o histórico conhecido do passado, os value investors acabam assumindo menos riscos que os demais investidores.

4. Quais são os grandes investidores que mais admira e por que?

Wagner Salaverry: No contexto brasileiro é difícil fugir dos nomes que estão por trás de grandes e longevas casas de investimento no país (Verde Asset/Hedging Griffo, Dynamo), bem como dos maiores empresários do país, que começaram no mercado financeiro local e hoje são referencia mundial – Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira.

Particularmente, tive uma grande referência em Edmundo Valadão Cardoso, um grande investidor brasileiro que foi meu chefe e posteriormente sócio, e que faleceu em 2012.

Quando iniciei no mercado financeiro na corretora de valores dele (Geração Futuro), em 1999, aprendi muito sobre como escolher as melhores companhias, olhando não apenas para os números das demonstrações financeiras, mas também para as pessoas que estão por trás dos negócios, e como cada companhia se posiciona para o crescimento dos seus mercados e os riscos existentes.

Investir em ações olhando o longo prazo, sem deixar de observar os riscos do curto prazo mas enfatizando as oportunidades existentes. Parece fácil, mas é bem difícil fazer isso no Brasil.

5. Como você enxerga a diversificação nos investimentos? É contra ou favor? Existe um percentual que recomenda em cada tipo de investimento?

Wagner: É interessante como esse conceito de diversificação é percebido de diferentes formas ao longo do tempo e das condições gerais dos mercados.

Em tempos de bonança, em que a economia cresce, juros caem e a percepção de risco diminui pelos investidores, o conceito de diversificação parece mais claro, pois os investidores mais conservadores percebem mais facilmente o quanto lhes custa em rentabilidade perdida o fato de concentrarem recursos em poucas e mais seguras aplicações financeiras.

Por outro lado, em períodos adversos de economia, em que o risco de perdas fica mais evidente e a cautela é predominante, o conceito de diversificação é deixado de lado por muitos, que decidem assegurar retornos sem exposição a riscos.

Minha opinião é que prudente e desejável diversificar investimentos. A grande questão é determinar o percentual adequado de exposição a cada tipo de investimento para cada investidor.

Você pode preencher os diversos tipos de questionários existentes no mercado, que ajudam a estimar qual o perfil dos investidores e sugerem as faixas de alocações em renda fixa e variável de acordo com os escores finais dos questionários.

Particularmente, contudo, acho que o mais relevante nesta hora de escolher o percentual de alocação em ativos de risco é saber qual a exposição máxima a perdas que cada investidor aguenta. E isso não se verifica em questionários, mas sim na vida real.

Na crise de 2008 vi muitos investidores pessoas físicas que afirmavam estar conscientes dos riscos de perda em ações durante o boom do mercado ficarem muito frustrados e até arrependidos por terem alocado muito do seu capital em ações.

Ao mesmo tempo, vi muitos investidores que já investiam em ações há muito tempo, e que começaram a aplicar em crises anteriores, comprando mais ações em meio a crise, ajustando a exposição de seus portfólios. Enfim, faz todo sentido ter uma exposição em ativos de risco, diversificando investimentos.

Para quem não começou até agora a fazer isso, sugiro cautela para não alocar muito em renda variável até que este investidor passe por uma grande crise, em que ele teste a sua percepção real a perdas.

Quem já se acostumou aos altos e baixos dos mercados, sugiro que vá diminuindo a exposição a riscos à medida que vá envelhecendo, realizando lucros (vendendo ações) paulatinamente quando tudo parece muito bom e os preços subirem bastante, e aumentando as compras aos poucos quando o cenário for adverso e as perspectivas de ganho em ações parecerem muito difíceis de ocorrer.

6. Quais são suas dicas para não deixar a emoção intervir nas decisões de investimento?

Wagner Salaverry: Muito difícil esse controle. Mesmo para quem é profissional, é difícil ser frio e não reagir às oscilações e os resultados dos portfólios. A experiência ajuda a não se frustrar tanto quando os resultados são ruins e as estratégias não parecem dar certo, evitando vender ações após acumular perdas.

A mesma experiência também ajuda a evitar aumentar a alocação em ações após grandes ganhos, quando as oportunidades são menores e os riscos maiores.

Importante não agir de forma rápida e impensada, sem avaliar as causas dos resultados obtidos, e também tomar decisões sem buscar as razões que as justificam.

Eu sugeriria que cada investidor escreva um resumo do porquê está tomando aquela decisão de investimento, pois quando se escreve a reflexão e os argumentos parecem mais claros. Difícil se passar emoção num papel ou numa tela de computador.

7. Se fosse dar um conselho para um grande amigo que está começando a investir em ações, qual seria?

Wagner: Comece num fundo de investimentos, delegando a um profissional as decisões de alocação. Após se acostumar com as oscilações diárias, e após ter passado por períodos de euforia e crise profunda de mercado, e se você gostar ou preferir tomar decisões próprias de investimento, então aí comece a investir sozinho.

Mais relevante para um iniciante em renda variável do que deixar de ganhar muito num período de alta, é evitar de perder num momento de baixa. Perder dinheiro marca muito mais forte as pessoas do que ganhar.

8. Como encarar o mercado de ações em tempos de crise como o que vivemos hoje?

Wagner Salaverry: Com cautela.

A ação barata de hoje pode ficar mais barata daqui algum tempo. Aquela história de que épocas de crise são períodos de oportunidade tem se mostrado verdadeira em países de economia madura e desenvolvida. Infelizmente no Brasil, um mercado emergente (e arriscado), não é possível estimar com razoável precisão quando e em que condições sairemos da crise.

Talvez uma adequada forma de se posicionar em ações nos tempos atuais seja investir poucos recursos, mas de uma forma contínua e repetida. Desta forma se evita o risco de escolher o “melhor momento” para investir.

Não se maximiza ganhos “fatiando” os aportes em ações desta forma, mas minimiza-se o risco de grandes perdas, com certeza.

9. Eu li uma reportagem de 2007 da Exame sobre seu trabalho na Geração Futuro. Me chamou a atenção o contato próximo com CEO’s de empresas que formavam a carteira da GF. Essa característica permanece? Por que faz questão desse contato?

Quando se investe em ações você está comprando parte de uma empresa. Não faz sentido pensar em ações como uma especulação, como uma “aposta”. E as empresas são formadas por pessoas, que tomam decisões diárias de investimento dos recursos existentes nestas companhias.

Assim, nada mais natural que os investidores procurem conhecer as pessoas que estão por trás das companhias que investem.

Ao conversar com CEO’s e com acionistas controladores você acaba conhecendo os valores pessoais destas pessoas, a forma que eles entendem e visualizam seus negócios e os dos concorrentes hoje e no futuro, como pretendem gerir a companhia, quais os investimentos, os riscos e as oportunidades mais relevantes, e qual a cultura daquela organização.

Pessoalmente considero isso sempre importante quando se atua no mercado acionário, sendo fundamental para quem faz gestão de recursos de longo prazo.

10. Se fosse indicar 5 setores da economia para o investidor ‘olhar com carinho’, quais seriam e por que?

Wagner: Novamente, depende do cenário que estamos trabalhando. Se as coisas piorarem ainda mais na nossa economia, o investidor deve privilegiar exportadoras, sejam elas produtoras de celulose, carne, ou outros produtos em que o Brasil seja competitivo.

Se o cenário for de reversão da trajetória adversa atual, as melhores oportunidades podem estar em setores de bens de capital, shopping centers e consumo. O setor financeiro parece adequado em qualquer cenário. Faz muito tempo que não vejo bancos privados brasileiros sendo negociados com preços pouco acima do valor patrimonial.

E aí, gostou da entrevista com Wagner Salaverry ?

Deixe um comentário dizendo qual foi a principal lição que tirou dela. E se tiver alguma sugestão de entrevistado estou aberto a ouvi-la.

Bons investimentos!

Crédito das imagens: www.shutterstock.com

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André Fogaça

André Fogaça é empreendedor digital, investidor e co-fundador do GuiaInvest. É formado em Administração de Empresas pela UFRGS e pós-graduado em Economia e Finanças pela mesma instituição. Possui credencial de administrador de carteiras e consultor de valores mobiliários pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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