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Valter Bianchi

Entrevista com Valter Bianchi – Uma Conversa Franca Sobre Investimentos

Tendo em vista a boa repercussão da primeira entrevista que fiz para o blog, hoje repeti a dose. Tive uma conversa bastante produtiva com Valter Bianchi Filho, sócio fundador da Fundamenta, gestora independente de recursos financeiros de Porto Alegre. Valter, há mais de 15 anos no mercado, é um profundo conhecedor do value investing.

Valter Bianchi Filho é fundador da Fundamenta, gestora independente de recursos financeiros de Porto Alegre e um profundo conhecedor do value investing. Veja a entrevista.

Entrevista com Valter Bianchi

Tendo em vista a boa repercussão da primeira entrevista que fiz para o blog, hoje repeti a dose. Tive uma conversa bastante produtiva com Valter Bianchi Filho, sócio fundador da Fundamenta, gestora independente de recursos financeiros de Porto Alegre.

Valter, há mais de 15 anos no mercado, é um profundo conhecedor do value investing.

Nessa entrevista exclusiva deu dicas preciosas tanto para investidores que estão começando na arte e ciência do investimento em valor, como para os que já estão nessa estrada há um bom tempo, mas gostam de ouvir palavras lúcidas sobre investimentos.

Boa leitura.

1. Qual é a forma mais adequada e sensata para o pequeno investidor encarar o mercado de ações? Principalmente para quem está começando, ou está interessado em começar a investir em ações?

Valter Bianchi: O primeiro passo é se aproximar de uma casa de investimentos que tenha confiança e que possa orientá-lo nas suas primeiras decisões de investimento.

Essa casa pode ser uma gestora, pode ser uma corretora, pode ser um consultor de investimentos, alguém que possa decodificar o funcionamento do mercado de capitais do ponto de vista de um profissional.

Você tem que entender que investir no mercado de capitais pode ser uma coisa fácil de se fazer, agora os riscos de cometer investimentos errados e perder dinheiro, são grandes para as pessoas leigas.

Assim como a gente é orientado a não tomar remédio sem uma prescrição médica, as pessoas devem considerar o investimento como um antibiótico, que só deve ser administrado sobre a orientação de um profissional.

E com o tempo, a medida que essa pessoa se sente mais confortável, adquirindo mais experiência, ela pode fazer seus próprios investimentos. Mas é altamente recomendável que os primeiros passos sejam com o acompanhamento de um profissional, que naturalmente irá cobrar por isso.

Cada um cobra de um jeito, a corretora através da corretagem, a gestora através de taxa de administração, consultores através de “fee consultoria”. Mas enfim é muito mais barato pagar isso do que perder dinheiro fazendo bobagem sozinho

2. Se a pessoa está interessada em ler algum livro sobre investimentos. Quais você recomenda?

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Valter Bianchi: Existem diversos livros de diversos níveis. Têm os livros do Mauro Halfeld, comentarista da rádio CBN, em especial o Investimento – Como administrar melhor seu dinheiro, um livro bem didático.

O jornal Valor Econômico já fez alguns livretos, a Bovespa tem alguns livros específicos para o investidor leigo. Há uma farta literatura que orienta o investidor a dar os seus primeiros passos.

Assim como hoje, temos muitos blogs como o GuiaInvest e fóruns de investidores que trazem informação. O único problema é saber diferenciar qual blog que é bom daquele que não é. Nem todo blog tem um bom editorial técnico por trás.

E nem todo fórum também tem informações corretas, tem muito fórum com gente falando bobagem, afirmando coisas que não podem ser afirmadas.

Por isso, um livro consagrado, que teve uma editora por trás, que fez um filtro de conteúdo, é um passo mais prudente. E a medida que o investidor vai ganhando mais traquejo, ele pode se aventurar por blogs ou fóruns, porque ele já vai ter um pouco mais de senso crítico e assim começa a ter uma opinião um pouco mais consolidada.

Eu também recomendo cursos, existem vários cursos bons, as próprias APIMEC’s (Associações dos analistas e profissionais de investimento do mercado capitais) ministram cursos para iniciantes.

Eu diria que um curso é melhor que um livro porque você tem acesso a pessoas que podem te dar indicações e tirar suas dúvidas. Acaba sendo uma aprendizado mais rápido.

3. Partindo para Value Investing. O que você pensa sobre ele?

Valter Bianchi: Eu me considero um investidor fundamentalista. Eu acho que existe uma certa confusão do que é ser um value investor. Eu trabalho com a concepção de que value investor é aquele investidor que procura comprar ativos que estejam baratos em relação às perspectivas que se acredita que se concretizarão no futuro.

Eu entendo que, frequentemente, o value investor é taxado como aquele que gosta de comprar apenas empresas que estão sendo negociadas a múltiplos extremamente descontados, o que eu não concordo.

Eu acho que o value investor pode, sim, comprar ações que tenham múltiplos elevados, contando que isso esteja respaldado pelo método pregado pela ciência fundamentalista.

Se ele entender que mesmo aquele múltiplo mais caro ainda não precifica as brilhantes perspectivas de uma boa empresa, pode-se dizer que é considerado um investimento em valor. Isso, para mim, é o conceito de value investing.

Estou dizendo isso porque tem gente que acredita que fazer investimento em valor é comprar ações de múltiplos extremamente descontados.

O importante é que a ciência fundamentalista sancione aquele gap entre preço e valor, em função do conhecimento que você tem da empresa, que vem depois de um árduo trabalho investigativo e de compreensão do que você acredita que a empresa irá entregar de resultados no futuro.

4. Como você acredita que o value investing pode ajudar, principalmente, os novos investidores?

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Valter Bianchi: Tem que se falar a verdade. Investir nos preceitos fundamentalistas de valor, é algo que dá muito trabalho e requer muito reconhecimento. Eu acho que não é a estratégia adequada para um investidor iniciante, principiante porque ele não terá as ferramentas e as condições para implantar essa estratégia.

Não recomendo que o investidor principiante queira utilizar essa estratégia até ele ter estudado e se preparado, o que requer um longo processo, cursos e livros até poder dar os seus primeiros passos dizendo-se um investidor fundamentalista de valor.

É muito simplista as pessoas ouvirem dizer que é bom comprar ações de baixo índice preço/lucro e comprá-las. O mercado é muito mais complexo que isso. Tem que cuidar para não se enganar achando que estão com a ferramenta na mão sem ter sido treinado para utilizá-la.

5. Existe um processo natural de maturação do investidor, acho que passa por isso que você comentou agora…

Valter Bianchi: Exatamente, a pessoa tem que ter noção do seu próprio desconhecimento do mercado, para que não saia tomando de decisões que com o tempo possam se mostrar muito infrutíferas.

6. Como lidar com o erro ao investir?

Valter Bianchi: É preciso ter noção de que as projeções que a gente faz podem estar erradas. Ninguém sabe para onde vai o preço do petróleo, a gente pode até fixar uma referência, baseada em estudos de oferta e demanda, mas estamos sempre sujeitos a errar.

E quando fizer a constatação que errou não tem que ficar chorando o leite derramado, vai lá e vende, sem cerimônia. Esse é um dos maiores equívocos que eu vejo os investidores principiantes cometerem. Isso está explicado em finanças comportamentais.

As pessoas relutam em assumir os erros e essa é a atitude mais antiprofissional que eu já vi ser cometida no mercado de capitais. Para mim, o que diferencia o investidor profissional para o não profissional, é essa capacidade de reconhecer o erro e exercer um prejuízo sem medo, olhar para a frente e partir para a próxima.

7. A respeito de diversificação nos investimentos. Qual a sua visão?

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Valter Bianchi: Eu sou totalmente a favor da diversificação por um simples motivo: há riscos que ninguém controla. Eu considero o seguinte, pega a referência americana, que é a referência do Warren Buffett. O índice americano mais importante (S&P 500), tem quinhentas ações.

Isto é uma carteira hiper diversificada. O Warren Buffett trabalha com carteiras com 30 ou 40 e ele considera isso uma carteira concentrada. O problema da concentração, é que é uma faca de dois gumes.

Se você compra um ativo, concentra e dá certo, você ganha muito dinheiro. Agora se der errado, você perde muito dinheiro. Eu considero uma carteira razoavelmente diversificada algo entre 15 a 20 ações.

Mais do que isso, o custo para controlar começa a ficar complicado e menos que isso você começa a ver uma volatilidade um pouco mais intensa.

8. Em termos de capital, ter 20 papéis não é para qualquer investidor que está começando…

Valter Bianchi: Se a pessoa tem três mil reais, por exemplo, esse capital dificilmente você diversifica em dez ou 20 papéis. Porque você vai comprar só no fracionário, no ‘granel’, aí o custo de aquisição começa a ficar maior, a corretagem é mais alta.

Para esse nível de capital, o investidor tem que se resignar em investir em fundos. Um fundo tem custos escalados, a carteira já é diversificada, então ele está comprando uma fração daquela carteira, está comprando um gestor profissional por trás.

O mais recomendável é que ele busque um fundo. O tícket médio que eu diria que é diversificável seria a partir de 20 mil reais. Você consegue comprar lotes mínimos sem tem que ir ao fracionário e os custos de transação começam a ser um pouco mais diluídos.

Então, para esse nível de capital, uma carteira individual começa a ser viável, mas lembrando que a carteira individual sempre vai ter aquele problema de que o ganho de capital sobre o imposto de renda sempre estará lá. Você vendeu um papel, tem que pagar.

Quando se investe num fundo o imposto só ocorre com o resgate de cotas. Então sempre é bom o investidor avaliar qual é a melhor alternativa que ele quer seguir, se é abrir uma carteira própria, individual, ou via um fundo de investimentos.

9. Outro tema que costumo abordar no blog são as finanças comportamentais. Quais são as suas dicas para que o investidor consiga se livrar o máximo possível de deixar as emoções influenciarem suas decisões de investimento?

Valter Bianchi: Primeiro, eu recomendo a leitura do melhor livro sobre o assunto. Rápido e Devagar – duas formas de pensar, de Daniel Kahneman, que é o pai das finanças comportamentais. Este livro não serve só para finanças, mas serve para a vida.

É um livro que dá lições muito didáticas e concretas sobre como nós pensamos e como nós mesmos caímos em armadilhas quando estamos diante de ambiente de tomada de decisão com incerteza.

É impressionante como somos suscetíveis a ter várias das nossas decisões influenciadas por vários mecanismos, táticas de marketing e por nossos próprios medos e anseios. Então, o primeiro passo é conhecer a si mesmo.

Conheça os defeitos que, como ser humano, está sujeito, conheça os erros comuns que os seres humanos cometem no mercado de capitais. Pois quem entra no mercado tendo uma clara visão dessas armadilhas, está muito menos sujeito a cometer erros que levam a perdas.

10. Lembrando o que você falou no início, sobre o fato de que ser um value investor dá trabalho, tem que ler bastante correto?

investidore tem de ler bastante

Valter: Tem que ler, ‘não existe almoço grátis’. Aliás, tem muita gente que vende a ideia de que para ganhar dinheiro no mercado de capitais, basta fazer um cursinho de final de semana e você já estará apto a ser um ás. Nada mais longe da verdade.

Tem que tomar muito cuidado, porque por trás desse curso rápido de ‘aprenda você mesmo’, pode estar o vendedor da ferramenta. Tem que saber que por trás de um curso que está oferecendo um aprendizado relâmpago de fim de semana, pode ter algum tipo de incentivo para você gerar corretagem ou outra coisa.

E isso não, necessariamente, é o mais correto jeito de proceder.

11. Como value investor, qual a sua visão a respeito de análise técnica?

Valter: Eu respeito muito a análise técnica. Não é uma ciência comprovadamente eficaz, mas eu entendo que a análise técnica, combinada com a análise fundamentalista, dá um resultado interessante.

Porque a análise fundamentalista dá um norte para onde você deve ir, ao passo que a análise técnica dá um insight sobre como está o psicológico das pessoas que estão negociando aquele papel. Agora, como qualquer habilidade, nem todo mundo detém.

O correto uso da análise técnica, é para poucos, requer muito treinamento. A análise fundamentalista dá muito mais chance de um investidor leigo ganhar dinheiro do que a análise técnica porque é um método cientificamente comprovado, mas também requer muito estudo e muito trabalho.

12. Quais são os investidores que você admira?

Valter: Eu admiro o Ray Dalio, é um investidor americano, dono da Bridgewater. É um cara com uma cabeça muito boa. Também admiro o Warren Buffet pelo que ele fez, sem dúvida trouxe para a escola fundamentalista uma relevância muito grande.

Aqui no Brasil, eu respeito muito o Luís Stuhlberger, que é um grande investidor de valor. O pessoal da 3G são excelentes investidores de valor.  Não só identificam valor, mas sabem criar valor, que é o passo seguinte e até muito complexo de ser dado.

13. Se você fosse dar um conselho para um grande amigo que não entende nada de ações, o que você diria para ele?

Valter: A primeira coisa que eu faria seria perguntar para ele: você quer você mesmo fazer os seus investimentos ou você quer entregar para um profissional para que você possa tocar a sua vida?

Se ele disser que quer dar para um profissional, eu indicaria um profissional em que ele tivesse confiança e cujo o trabalho ele gostasse. Agora, se ele quisesse fazer por conta própria, eu diria para buscar um bom curso para principiantes, de preferência numa associação e não numa casa de investimentos, pois tende a ter menos conflito de interesses.

Feito esse curso, provavelmente ele irá conhecer pessoas e ter algumas bibliografias para se aprofundar. E depois de um longo trabalho de aprendizado e cristalização do conhecimento, começar com uma quantia pequena de recursos e observar por, no mínimo um ano, para começar a entender se esses investimentos estão se saindo bem ou não.

Se for um investidor racional poderá concluir se aprendeu corretamente ou não, ter a lucidez de que se não aprendeu, é que não foi feito para aquilo. Nós temos que tomar cuidado para não deixar o investimento preencher a lacuna de apostador que muitos seres humanos possuem.

Tem muita gente que vem sanar essa ânsia por jogatina na bolsa. É um approach totalmente equivocado. É um longo caminho esse caminho do ‘faça você mesmo’.

14. Como o investidor deve encarar o mercado em tempos de crise, de situações conturbadas tanto política como economicamente, como vivemos hoje?

Valter: Com conservadorismo. Nessas horas o investidor tem que ser conservador, tomar muito cuidado com os tipos de investimento que vai fazer, porque nos momentos de crise é que ocorrem grandes perdas. Em tempos de crise, mais do que nunca, o mantra de ‘proteja o seu capital na hora de investir’ deve estar presente.

15. Se você fosse citar cinco setores da economia para o investidor olhar com carinho. Quais seriam e por quê?

Valter: Falando de Brasil, o setor financeiro é um setor que ganha dinheiro, incluindo empresas de serviço financeiro. O setor alimentício também tem sido um ganhador de dinheiro. O setor elétrico ainda é muito pouco compreendido, infelizmente, mas é um setor interessante e tem dado muito retorno para quem o conhece.

Outro, ao contrário do senso comum, é o setor de telefonia, pois desde que foi privatizado, há quinze anos, está numa situação de pressão competitiva cada vez maior, mas a gente arrisca a dizer que o setor chegou em um equilíbrio e que a partir de agora a pressão tende a arrefecer.

O setor agrícola, talvez seja o mais dinâmico que o Brasil tem, porém temos poucas empresas ligadas à bolsa. Diria, ainda, o setor de consumo ligado a empresas de bens não duráveis. O Brasil tem empresas com vantagens competitivas importantes e marcas muito fortes nele.

E aí, gostou da entrevista?

Deixe um comentário dizendo qual foi a principal lição que tirou desta entrevista.

Bons investimentos!

Crédito das imagens: www.shutterstock.com

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André Fogaça

André Fogaça é empreendedor digital, investidor e co-fundador do GuiaInvest. É formado em Administração de Empresas pela UFRGS e pós-graduado em Economia e Finanças pela mesma instituição. Possui credencial de administrador de carteiras e consultor de valores mobiliários pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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